sábado, 27 de março de 2010

Renato Russo, my best

Conheci esse cara aí por meio de sua obra, como a maioria de seus fãs.

O ano era 1986. Momentos finais de Roque Santeiro na Rede Globo (novela anteriormente censurada). Eu tinha cerca de 13 anos e havia deixado a escola onde havia estudad desde a primeira série para finalizar o ginásio e fazer o colegial em um colégio melhor em outra cidade. Tudo novo. Tanto desafio. Tanta superação. Quanto enfrentamento. Carregava uma imensa vocação para o questionamento, para a reflexão e a dose de indignação acima do normal que corre no sangue de todo adolescente saudável.

Nós não tínhamos internet. Computador? Estava chegando no país, restrito ao uso empresarial e acadêmico. Celular só em filme futurista e quem tinha em casa um telefone sem fio já era tido como moderno.

Eu buscava nas rádios, nas lojas de discos, nas dicas dos amigos, nas fitas cassetes piratas (cópias do vinil), nas revistas semanais, nos cadernos de cultura, nos livros e biblioteca. Nossa busca por referências, por mensagens, por cultura era assim: manual. Escavando mesmo.

E uma amiga recém conhecida desta época (e que seria crucial em minha existência, o temp mostraria) me apresentou algumas músicas de um disco branco de uns caras bem feios e barulhentos de Brasilía: Legião Urbana.

E foi amor à primeira vista (ou audição).

Uma voz potente e doce, furiosa e terna estava lá, dizendo tudo que sentíamos. As melhores palavras, com rock de categoria. A voz era dele: Renato Russo. E gosto de me lembrar dele assim, como nessa foto: em preto e branco, ou melhor, como dizia em Acrilic on Canvas "...em luz em sombras". Porque era esse o dom de Renato, acessar nossa luz e sombra, como se as compreendesse, como se nos conhecesse. Esse sentimento, que era tão meu, era partilhado por milhares de jovens.

Porque Renato abordava questões essenciais da existência. Questões universais. Passagens da jornada de todo jovem brasileiro classe média-média. Ele era nossa voz.

Os anos passaram. Sei todas as letras, de todos os discos. Nunca diminuiu miha paixão. Os temas foram mudando e crescendo comigo, numa sincronia misteriosa.

Todos nós sabíamos que Renato tinha HIV, que estava com AIDS, que tive problemas com drogas e que sofreu muito por sua condição homossexual, no mundo machista (inclusive do rock). Em meu círculo de amigos, incluindo os garotos, nunca ouvi ninguém diminuir sua grandeza por nenhum desses aspectos. Não era época de Caras, com paparazzi pendurados nas árvores. Nosso ídolo sofria, nós lamantávamos e torcíamos por sua sáude e felicidade com a honestidade que só os corações jovens (e joviais) possuem.

Só sei que tudo que passei em minha vida, teve ao menos um música do Legião como trilha.

Terminei colegial, faculdade e fui fazer pós. Época de incertezas, de decisões, de mergulhar no vazio (porque às vezes é preciso) e torcer para que os braços certos te segurem...

Era 1996. Eu me lembro. Dia 11 de outubro. Na TV a notícia da partida de Renato Russo, já muito doente então. Lembro minha tristeza. Lembro que fiquei sem palavras.

E ficamos todos, jovens da época, sem as palavras exatas para todos nossos sentimentos... Nosso porta-voz se fora.

Por crueldade ou ironia do destino, a grande amiga que me apresentou Legião Urbana, também partiu cedo demais, tempos depois de Renato.

Hoje, pra mim, ouvir Legião é ouvir a reunião de muitos sentimentos, é ouvir o som de uma época em que éramos todos jovens e imortais. Eu revejo eucaliptos que nos guardavam e que não existem mais, sinto o frio da madrugada e o cheiro do chocolate quente "batizado" que nos aquecia, sinto o peso de meu microsystem Gradiente que eu levava onde fossemos (6 pilhas grandes e sempre rolando Legião), sinto o cheiro particular das apostilas novas, ouço nossos gritos e risadas no ônibus que nos conduzia ao colégio e onde debatemos e decidimos coisas tão cruciais de nossas vidas, sinto o gosto do vinho tinto barato que nos elevava à condição de Filósofos.

E você ? Conhece Legião e Renato Russo? Espero que sim. Não passe essa vida sem isso. É um dos poucos pecados em que acredito.

Clica ai embaixo e ouça uma das obras primas de Renato Russo e tão atual ainda hoje (Perfeição - letra completa):


OUÇA AQUI



Bom, tudo isso, porque Renato faria hoje 50 anos de idade. Mas, assim como minha amiga querida, ele se foi cedo demais. Não importa. Nem ele, nem ela, nunca seriam coroas e caretas mesmo.

Serão sempre espíritos eternos e eternamente jovens.


Um comentário:

Juliana Pires disse...

Grande Renato Russo, ele faz muita falta na música brasileira.

Beijos